quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Saúde Comunitária

A rotação em Saúde Comunitária tem sido uma boa surpresa. Assim de forma fácil de perceber posso dizer que Saúde Comunitária = 50% MGF + 50% Saúde Pública. O médico dá consultas, vê doentes, mas também planeia muitas actividades de prevenção de doenças, promoção da saúde, estudos de necessidades da comunidade...

Todos os dias saímos do Hospital às 8.30 da manhã num autocarro (que não passaria nunca em nenhuma inspecção ou avaliação de segurança!) que deixa toda a equipa no centro de saúde rural nos arredores de Kochi a 45 minutos. A paisagem é lindíssima, assim não custa nada fazer a viagem não é?




Alternadamente temos ficado na consulta externa ou saímos com a equipa de campo. O centro de saúde (da organização AIMS, ou seja, privado) abrange uma área com 30.000 pessoas.


Há programas na comunidade de saúde materna, saúde infantil, prevenção de doenças causadas por mosquitos, cessação tabágica, qualidade de vida dos idosos… enfim… uma série de actividades que as equipas tem com a população local de forma a informar, prevenir, mudar estilos de vida…

 

Temos assistido principalmente à saúde de adultos e é quase como estar em Portugal J Diabetes Mellitus tipo 2 e hipertensão arterial são 50% dos casos vistos num dia. A grande diferença é que os doentes têm de vir a consulta a cada 5 dias levantar os medicamentos! Pois é! Como o stock é sempre pequeno, os medicamentos são dados ao doente apenas por 5 dias. Podem imaginar quantos não cumprem a medicação.

Depois há as lombalgias, dores articulares, infecções respiratórias… eles dizem que também estamos num local privilegiado da Índia e que Kerala é uma das regiões mais ricas, com boa qualidade de vida e onde a esperança média de vida é mais alta que no resto do pais.

Numa das visitas de campo também tivemos oportunidade de ir visitar o Centro de Saúde estatal da zona. Acho que ao olharem para as fotos já percebem as diferenças.

                      (sala de consultas - todos os médicos dão consulta ao mesmo tempo)


A organização também tem Centros de Saúde urbanos, mesmo no centro de Kochi. Aqui o trabalho desenvolvido é o mesmo. As equipas de campo conhecem quase toda a gente. Trabalham muito com pessoas “importantes na comunidade, como a Sra. de quem toda a gente gosta e sabe onde as pessoas do bairro andam, o que fazem, que dificuldades que têm, com as professoras das escolas, com as mães que ficam em casa a tomar conta dos filhos e vizinhos… A proximidade dos técnicos com a população é grande.

(toda a equipa numa reunião com uma das senhoras responsáveis por varias actividades no bairro)

(Visita a um jardim de infância local)

Visitamos o que eles chamam de favela (mas avisaram logo que as de Kochi são boas!), onde as pessoas moram em barracas ao lado dos carris dos comboios, sem esgotos, água ou electricidade. 







E foi assim o último dia de Saúde Comunitária. Pedimos para ficar 10 dias e com os 2 últimos Sábados e Domingos :) 10 dias done :)

Next stop: GI Surgery :) oh yeahh

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Bye bye polio


Completou 2 anos em Janeiro que a Índia não regista nenhum caso de poliomielite. O país era um dos grandes focos da doença e a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o governo estão a fazer grandes esforços para erradicar a doença. Para terem uma ideia, a OMS declarou a poliomielite erradicada do continente Americano em 1994 e da Europa em 1999.

De uma forma muito simples, a poliomielite (pólio) é uma doença viral altamente contagiosa, que afecta principalmente crianças pequenas. O vírus é transmitido através de alimentos e água contaminados, e multiplica-se no intestino, a partir de onde ele pode invadir vários sistemas. Os sintomas iniciais da poliomielite são febre, fadiga, dor de cabeça, vómitos, rigidez no pescoço e dores nos membros. Numa pequena percentagem de casos, pode causar paralisia, o que muitas vezes é permanente.

(imagem de http://www.healthandphysicaleducationteacher.com)

 A vacina oral da polio é muito eficaz nas campanhas de vacinação em massa pela comodidade da via oral e pelo facto de o vírus atenuado nela contido ser excretado nas fezes, podendo conferir imunidade aos não-vacinados que entrem em contacto com ele nas regiões de saneamento precário.

(AP photo/ Altaf Qadri)

O último caso de pólio na Índia foi registado numa menina de 2 anos na região de Bengala em Janeiro de 2011, uma diferença brutal quando se compara com os 741 casos registados em 2009, os 6.028 de 1991 ou os 150 mil de 1985.

No domingo dia 20 de Janeiro foi o Polio Vacination Day em todo o país e nós tivemos a sorte de cá estar e perceber como funciona todo este planeamento.

 

Durante as campanhas de imunização na Índia, as autoridades administram cerca de 2,3 milhões de vacinas sob a supervisão de 155 mil pessoas, que fornecem a vacina oral a cerca de 172 milhões de crianças menores de 5 anos em todo o país. A OMS fornece as vacinas ao governo que as distribui pelos centros onde serão administradas.

Estivemos no centro de saúde do AIMS na região rural nos arredores de Cochin e foram vacinadas 117 crianças.



Na semana anterior as equipas de campo (que já tinham identificado todas as crianças com menos de 5 anos naquelas “freguesias”) foram porta a porta relembrar as pessoas da vacina.



Assim como na semana seguinte à vacina! A equipa lá foi porta a porta marcar (literalmente) o número da casa que recebia a vacina para depois a OMS confirmar. 



 P de polio, casa número 3 do bairro e o dia em que a equipa foi confirmar.



Foi muito interessante para nós, enquanto estudantes perceber todo o esforço que as organizações e inúmeras pessoas (médicos, assistentes sociais, enfermeiros, professores, mães e toda a comunidade)  fazem para promover a erradicação de uma doença, os recursos que consome e o tempo.... o tempo.... que cada pequeno passo leva.

E assim a Índia está no bom caminho.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Vir para a Índia sem ir a um ashram não seria a mesma coisa

Faz parte da rotação de Saúde Comunitária os internos fazer 1 ou 2 semanas no ashram da Amma perto de Kollam.


 Dizer que fomos obrigadas é exagero J fomos informadas da hipótese e dissemos logo que sim… e assim seguimos na 5ª de tarde para o ashram mal saímos do Centro de Saúde Rural (post de Saúde Comunitária vem já a seguir).

De uma maneira muito simples, podemos dizer que o ashram é uma comunidade/ retiro espiritual... e se quiserem saber mais a bela da wiki dá uma ajuda...

A Amma, ou Sri Mata Amritanandamayi Devi, é uma líder espiritual e humanitária conhecida em todo o mundo e que é famosa pelos seus abraços! É uma “guru” da Índia, com uma história de vida interessante e com uma organização de apoio humanitário muitoooooo mais interessante. 





A organização Embracing the World tem acções em inúmeras áreas e em imensos países… por exemplo tem acções de auxilio após catástrofes naturais, tem lares para crianças e idosos, acções de renovação de bairros de lata em várias cidades na Índia, cuidados de saúde gratuitos, bolsas de estudo para 100.000 crianças de comunidades empobrecidas na Índia, Haiti e Quénia… and so on…


O Hospital onde estamos a fazer o elective pertence a essa organização. Como já tinha dito é um Hospital privado e é uma referência nacional em muitos serviços. Just to give and ideia…tem 2 pet-scans e 4 RM!!! Até perguntamos várias vezes para confirmar… 4 ressonâncias magnéticas? 4?

Os dias no ashram começavam às 6 da manha com meditação na praia, seguida de aulas de ioga. As refeições são indianas e muito light!!! e após 2 refeições de sopa de arroz com vegetais rendi-me à cantina vegan que existia no ashram que era deliciosa.

Foram uns dias de muito relax, calma e tempo J foi bom não sentir culpa por não estar a estudar. O bom mesmo do ashram foi ter tantas horas só para mim… sem telefone, sem net, sem livros, sem pessoas, sem obrigação. Foram dias para limpar ideias, planear projectos, reforçar vontades… foi tudo de bom.
(Vista do corredor dos quartos)

Conhecemos pessoas do mundo inteiro, muitos franceses e americanos, italianos, suecos, japoneses, brasileiros, espanhóis, russos… nem eu tinha percepção que a Amma era assim tão famosa. Havia crianças, jovens, pessoas com 80 anos!! Gordos, magros, bonitos, feios, pessoas com ar de doentes, pessoas cheias de energia. Nós ficamos 3 dias e havia quem ficasse 15 dias, ou 3 anos!!!… o que nos levou ao ashram foi o acaso mas fiquei tão curiosa para saber a história daquelas pessoas.

(O templo principal, no meio dos dormitórios)

A Amma não estava, por isso não fomos ao darshan (aos tais abraços)… maybe next time.

( A praia onde fazíamos meditação twice a day)

Nós viemos embora Domingo, os internos de Medicina Comunitária lá ficaram para mais uns dias a ver cefaleias e doenças gastrointestinais!








terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Vai um masala dosa?


Pronto, um post sobre comida! Já que toda a gente me pergunta o que ando a comer…

Este restaurante tem sido quase a nossa sala de jantar :) 

yep very good nos 1os dias :) agora hmmm.....

Temos feito uma alimentação 99% vegetariana. Gosto de ver e saber o que estou a comer e faz-me muita confusão pedir peixe ou carne e não perceber bem o que é!!!

A base da alimentação (pelo menos aqui no sul) é arroz com uma leguminosa qualquer. Comem muitos derivados do arroz, como massa, pão de farinha de arroz, panquecas, pães de arroz…

A variedade de alimentos é pouca. A cantina do Hospital tem qualquer coisa como 8 a 10 pratos (sempre os mesmos 10 pratos todos os dias) que servem para pequeno-almoço, almoço ou jantar…


Pequeno-almoço?
Pequeno-almoço? almoço ou jantar?... o que vocês quiserem. Já comemos os 3 pratos distribuídos pelas 3 refeições. Appam, dosa, masala dosa, iddly, ghee roast.... era chinês para nós...

Segui alguns conselhos de quem já tinha estado (outros não J), e assim ao 2º dia já estávamos a beber lassis, nunca nos lembramos de pedir comida menos (ou sem) picante! E acho que agora já estamos habituadas. 



Ok, não gozem quando chegar ai com as mãos de cor diferente. A minha mão direita já tem uma cor diferente! a pele esta amarela!! bem esfrego.... mas isto de se comer com as mãos várias vezes ao dia...

Numa tentativa de não nos fartarmos muito da comida (pois, como se não tivesse já acontecido!!) e de usarmos uma colher de vez em quando, temos optado por tomar os pequenos-almoços em casa. Quem diria que corn flakes com fruta nos iriam saber tão bem.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Elective mode

Já cá faltava um post sobre o nosso elective não era? 

A verdade é que já estamos tão dentro da rotina Hospital-biblioteca que apesar de estarmos na Índia podíamos estar em outro lado qualquer.


(imagem da entrada do edifício central do Hospital - à volta do qual se ligam 6 torres com 5 pisos com enfermarias)

Hoje foi o nosso último dia no Serviço de Medicina Interna, onde estivemos 2 semanas mas, temos a sensação que aprendemos mais do que em 1 mês inteiro!

O nosso últimos dias foram assim:

- Pré-ronda às 6 ou 8 da manhã (sim, e verdade, íamos mais vezes as 8 da manha) - é a melhor altura para fazer exame objectivo aos doentes porque só estão presentes os internos que discutem connosco os casos ao pormenor.


(foto manhosa tirada "às escondidas". A de cima é a uma enfermaria paga com quartos com 4 camas, a foto em baixo é da enfermaria de anexo (como eles chama!!!), com 100 camas, para quem não pode pagar os serviços médicos (o acesso a qualquer serviço do Hospital é = para todos os doentes))

- Visita médica de inicio entre as 9-10h - onde fazemos uma 2ª visita aos doentes da pré-ronda. Aqui os médicos senior estão presentes (e como partilhou o Daniel, aqui também é sempre o médico mais graduado que paga o café :)). Nestas visitas os internos apresentam o caso ao médico, discutem os exames e reverem medicação. A maioria das conversas com o doente é em malayalam, por isso ficamos sempre mais tempo a olhar para o ar ou com a cabeça entre o Oxford Handbook que esta sempre nas nossas mãos. Os médicos gostam de nos fazer algumas perguntas sobre a fisiopatologia e apresentação clínica das doenças... acho que nos vamos safando...

(1º os consultants, depois os alunos de especialidade, depois os internos... depois as estudantes... não é sempre assim :) mas aprendemos a levantar da cadeira sempre que um médico passa num corredor ou entra numa sala)

(Alguns dos casos que vimos:
- Doente do sexo masculino, 57 anos, que veio ao SU com febre + dor no QSD do abdómen + icterícia. Hipóteses de diagnóstico? Pois :) nós também fomos por ai:  hmmm colangite, hepatite, ... Diagnóstico = leptospirose

- Doente do sexo feminino, 37 anos com febre há 3 dias + mialgias + cansaço + cefaleias. Pusemos várias hipóteses de diagnóstico ao mesmo tempo que nos iam negando sintomas... Diagnóstico: dengue.

- Estes são os casos que não vemos aí. De resto vemos muita DM tipo 2 com complicações, muitas alterações da função tiroideia, muitaaaaaa doença hepática crónica descompensada...)

(E este ECG Zé?:))

- Às 3 da tarde há aula do internato médico, onde discutem um caso clínico interessante ou discutem um tema clínico  Por exemplo, a aula de ontem foi sobre Vasculites. Já assistimos à aula de Abordagem da dor torácica, doença hepática crónica,... a minha atenção nestas aulas tem sido sempre pobre... tenho muita dificuldade em acompanhar o que eles dizem. O sotaque é carregado, as ventoinhas estão sempre ligadas, as janelas abertas.... há muito ruído e eu só tenho apanhado metade!!

- Nova ronda de internos às 6 da tarde. Sim :) 3 por dia!!


- Biblioteca quando temos tempo, como agora :) que é o único sítio onde temos net. Também temos conseguido ler alguma coisa de Harrison o que não está mau de todo (para além de revermos as muitas dúvidas que surgem nas visitas aos doentes). A biblioteca da faculdade é a maior e melhor biblioteca de Medicina que já vi. As regras são difíceis para nós de perceber (não podemos entrar com livros pessoas, com cadernos de argolas, com mochila ou saco!!!!) mas é a mais bem equipada biblioteca de Medicina onde tive o prazer de estudar.


Amanhã começamos num novo Serviço - Saúde Comunitária. Sim :) amanhã, Sábado :) Depois conto-vos as novidades ***